Crítica A Filha do Capitão Literaturzirkel Belletristik joserodriguessantos Março 14, 2023

Crítica A Filha do Capitão Literaturzirkel Belletristik

Literaturzirkel Belletristik

Alemanha

“Todas as mulheres da minha casa – à exceção, talvez, das gatas, e mesmo assim não tenho a certeza – reagiram com um sorriso quando me viram a ler este romance. O que elas queriam dizer era: ‘oh, pobrezinho, por que tens de ler isso?’ No entanto, assim que deixava «José Rodrigues dos Santos» sem vigilância – mesmo que apenas por alguns minutos – uma delas agarrava-o imediatamente com as suas mãos de unhas cuidadosamente pintadas, e sentia-se ofendida quando eu o exigia de volta. Tive de lutar por este livro de uma forma que não me lembro de ter lutado por um livro nos últimos anos.

Só isto é suficiente para transmitir a qualidade do romance, mas gostaria de acrescentar algumas outras razões pelas quais você (sim, refiro-me a si, diretamente) deveria ler A Filha do Capitão.

A vida é um caminho misterioso. Um dia, cada um de nós encontra nele o seu amor, uns num cruzamento abandonado, outros no fim da estrada. E há os condenados a procurá-lo eternamente – pessoas como o Capitão Afonso da Silva Brandão e a bela Agnès Chevallier, que foram feitos um para o outro. Isto soa um pouco patético? Acreditem, este romance é pura música. A Filha do Capitão é muito mais do que uma bela história de amor. É a expressão de algo que se faz lembrar o fado, a popular canção portuguesa.

José Rodrigues dos Santos fez uma pesquisa rigorosa sobre o seu tema. A sua narração de factos históricos é excelente, mas, mais do que isso, o seu estilo de escrita é prodigiosamente poético e melódico, encantando realmente o leitor. O seu estilo foi bem reproduzido em alemão pelas talentosas tradutoras Bárbara Mesquita, Karin von Schweder-Schreiner e Marianne Gareis. A Filha do Capitão não é um romance romântico para mulheres. Na verdade, é muito mais do que um romance – é uma história verdadeiramente fascinante sobre amor e destino, escolha e livre arbítrio em tempos difíceis. É uma obra inesquecível – de leitura única e aconselhável”.

A Mulher do Dragão

O que o levou a querer contar esta história específica, neste contexto?
A guerra entre a Ucrânia e a Rússia integra um conflito global entre as democracias liberais e as ditaduras. Atrás da Ucrânia está o Ocidente, atrás da Rússia está a China. Acontece que a China, embora se finja pacífica e paladina da harmonia e da amizade, é um país muito mais perigoso do que a Rússia. Trata-se de uma ditadura de vigilância policial que reprime a livre opinião e a oposição e que tem mais de uma centena de campos de concentração com até três milhões de prisioneiros por razões de etnia. Pratica tortura, esterilizações forçadas das minorias étnicas e escravatura. Além disso, tem planos de dominação mundial que passam por exportar o seu modelo de regime para o mundo inteiro. Escrevi “A Mulher do Dragão Vermelho” para mostrar toda esta realidade escondida que ameaça a nossa liberdade.

Já há muito que queria levar as aventuras de Tomás Noronha até à China?
Não. É a realidade totalitária do regime nacional-socialista chinês que me impôs o tema. Estamos distraídos a olhar para a Rússia, mas atrás dela encontra-se um regime muito mais perigoso.

É, portanto, uma forma de alertar para os perigos do regime chinês?
A boa ficção é sempre sobre a verdade. Os escritores interessam-se pelos grandes temas do seu tempo e procuram lançar alertas antes de os problemas se tornarem visíveis. O regime chinês é um problema prestes a explodir nas nossas caras e, como romancista, tenho a responsabilidade de o expor. 

Acredita que o regime político chinês é subvalorizado no ocidente e, em particular, em Portugal, pelas pessoas comuns?
Não só pelas pessoas comuns, mas pelas próprias lideranças. Por exemplo, o governo português afirmou recentemente que pretende aderir ao projeto neocolonialista da ditadura chinesa, as Novas Rotas da Seda, ao convidar Pequim a comprar Sines. Isto mostra o nível de ignorância que existe sobre o tema. Acusamos Salazar, e bem, de não ter denunciado a ditadura nazi, mas nós próprios estamos em silêncio diante de uma ditadura nacional-socialista como a chinesa. E até lhe sorrimos, fazemos promessas de amizade e pedimos o seu dinheiro.

Qual foi o grande desafio de escrever este livro?
Escrever de uma forma que se entenda exatamente o que é o regime comunista chinês. A sua realidade interna e o seu projeto para o mundo. Essa realidade é tão incrível que ultrapassa a imaginação.

De que forma é que se procurou informar sobre o regime chinês para escrever sobre ele?
Li estudos académicos e relatórios da ONU, da Amnistia Internacional e do Human Rights Watch.

Nessa pesquisa, houve algo que o tenha surpreendido e impactado particularmente? Ou já estava bastante informado e familiarizado com o assunto?
Já tinha abordado o estado de vigilância policial da China, com recurso amplo e ilimitado à inteligência artificial, num romance anterior, “Imortal”. Porém, o assunto tem tal gravidade que me pareceu ser importante regressar a ele com maior profundidade. Muitas coisas me surpreenderam. Por exemplo, o romance conta a história de uma pessoa a quem a polícia chinesa instalou uma câmara de vigilância na sala de estar, com microfone, para a ver e escutar em permanência, apenas porque ela não tinha feito o seu habitual passeio das nove da manhã. Acontece que este episódio não saiu da minha imaginação. Aconteceu mesmo. Tudo o que está no romance, mesmo as coisas que nos podem parecer mais incríveis, é baseado em coisas que aconteceram a pessoas reais.

Foi fácil, a partir deste tema de contexto real, desenvolver a narrativa de ficção?
Fácil, fácil… não direi. Mas, de certo modo, este romance só é de ficção no nome. Como disse, tudo o que está nele escrito é baseado em coisas verdadeiras.

Teme algum tipo de represálias por parte do regime chinês?
A China raptou um cidadão sueco por ter publicado livros a criticar o regime. Portanto, ninguém está a salvo. Mas não podemos ceder ao medo. As coisas têm de ser ditas. 

Qual será o destino de Tomás Noronha numa próxima aventura? Já está a escrever esse livro?
O próximo romance já está na fase de revisão, mas a seu tempo falarei dele.